1. Introdução
O intenso processo de urbanização e
o estabelecimento de um sistema alimentar globalizado e pautado pelo
agronegócio têm provocado um distanciamento progressivo entre a população
urbana e a produção de seus alimentos. Esse modelo hegemônico, dependente de
longas cadeias de transporte e insumos químicos, impacta negativamente a
qualidade nutricional e o meio ambiente. Simultaneamente, o crescimento
desordenado das cidades agravou a vulnerabilidade socioeconômica de grande
parte da população, resultando em um cenário preocupante de crescimento da
insegurança alimentar (POPKIN et al. 2020).
Nesse cenário, a Agricultura Urbana
e Periurbana (AUP) desponta como uma estratégia fundamental para a mitigação da
fome e a promoção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), visando o
fornecimento de alimentos frescos, a geração de renda e a criação de sistemas
alimentares descentralizados e resilientes (SANTANDREU & LOVO, 2007). As
hortas comunitárias destacam-se como uma de suas principais manifestações,
sendo definidas como espaços de cultivo geridos coletivamente por grupos de
cidadãos baseados na autogestão e no trabalho voluntário (ARRUDA, 2006). O
crescimento dessas iniciativas nas cidades reflete uma estratégia de resistência
de populações que buscam o autoabastecimento e o direito à cidade (OLIVEIRA,
2022).
Este estudo surge da necessidade de
compreender as hortas comunitárias não apenas como espaços produtivos, mas como
arenas políticas, terapêuticas e de conservação ambiental que dialogam
diretamente com a sustentabilidade global. E tem como objetivo analisar como as
hortas comunitárias contribuem para a promoção da Segurança Alimentar e
Nutricional e discutir como essa prática se articula com as cinco
macrotendências da SAN.
2. Hortas comunitárias
A Agricultura Urbana e Periurbana
(AUP) é definida como o cultivo, o processamento e a distribuição de produtos
alimentares e não alimentares ocorrendo dentro ou no entorno dos centros
urbanos. O diferencial da AUP em relação à agricultura rural tradicional é a
sua íntima integração com os ecossistemas econômicos e ecológicos urbanos,
utilizando e reaproveitando de forma eficiente os recursos e insumos locais,
como resíduos orgânicos urbanos e lotes/terrenos inutilizados (SANTANDREU &
LOVO, 2007).
Dentro deste escopo, as hortas
comunitárias caracterizam-se pelo plantio de espécies alimentares, medicinais e
ornamentais de pequena a média escala inseridas em lotes contínuos ou
descontínuos em áreas residenciais, sendo operadas e administradas
coletivamente por um grupo cujos alimentos são destinados primariamente ao
autoconsumo, doações ou trocas. Dessa forma, a governança desses espaços
perpassa pela participação social e organização em mutirões, exigindo constante
gerenciamento de conflitos (HODGSON et al. 2011).
3. Segurança Alimentar e
Nutricional
O conceito de Segurança Alimentar
evoluiu significativamente. Pós-Segunda Guerra Mundial, o foco internacional,
influenciado pela Revolução Verde, recaía sobre a ampliação da disponibilidade
física de alimentos (LEÃO, 2013). No entanto, a persistência da fome evidenciou
que a simples oferta agregada era insuficiente, deslocando o conceito, na
década de 1980, para a garantia de acesso econômico e físico aos alimentos
(CONTI, 2013; BRASIL, 2011). No Brasil, pensadores como Josué de Castro já
denunciavam, desde 1946, que a fome era um produto de estruturas
socioeconômicas e não apenas um fenômeno natural.
Com a redemocratização e a força
dos movimentos sociais, o conceito brasileiro de SAN foi sendo lapidado,
culminando na Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Lei nº
11.346/2006). A lei inovou ao integrar as dimensões nutricionais e socioculturais,
definindo a SAN como o "direito de todos ao acesso regular e permanente a
alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a
outras necessidades essenciais" (BRASIL, 2006).
A SAN ultrapassa a simples oferta
porque está alicerçada no Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) e na
Soberania Alimentar, exigindo que o abastecimento ocorra de forma ambiental,
cultural, econômica e socialmente sustentável (MALUF, 2007). Consolida-se em
quatro dimensões propostas pela FAO, são elas:
- Disponibilidade de alimentos: oferta adequada de alimentos para atender toda a população, tendo como referência o nível de consumo adequado. Também está relacionada a produção, comércio nacional e internacional e ao abastecimento e distribuição dos alimentos.
- Acesso
físico e econômico aos alimentos: ocorre quando todos têm capacidade de obter
alimentos através da produção, compra, caça/pesca ou troca.
- Utilização
dos alimentos: está relacionado a utilização biológica, influenciada pelas
condições de saneamento básico e saúde das pessoas e a segurança microbiológica
e química dos alimentos. Sendo assim, abrange o conhecimento nutricional, os
hábitos e as escolhas alimentares e o papel social da alimentação na
comunidade.
- Estabilidade: necessidade de garantir a disponibilidade, o acesso regular e contínuo aos alimentos e a sua utilização (Morais et al. 2020)
4. Hortas comunitárias e Segurança
Alimentar e Nutricional
As hortas comunitárias refletem a
materialização da SAN no território urbano. Em relação à disponibilidade
alimentar, elas aumentam a oferta local através do cultivo, garantindo uma
diversidade de alimentos (hortaliças, legumes, ervas) adaptados à sazonalidade
local. Embora não substituam o abastecimento macro, atuam como uma poderosa via
de complementaridade.
Além disso, ampliam efetivamente o
acesso a comida saudável, sendo grande aliada na luta contra os "desertos
alimentares" periféricos. Também potencializa o acesso econômico por reduzir
os gastos com alimento através do autoconsumo, doação dos excedentes a vizinhos
em risco ou pela geração de renda na venda em circuitos curtos de
comercialização (Santos & Machado, 2020).
A qualidade nutricional é um dos
impactos mais diretos. As hortas modificam positivamente os hábitos
alimentares, incentivando a substituição de produtos ultraprocessados pelo
consumo de vegetais frescos e in natura (Santos et al. 2020). Somado a
isto, as hortas comunitárias se caracterizam pela biodiversidade dos alimentos
produzidos, incluindo Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) e
frutíferas que tradicionalmente não são comercializadas, contribuindo para a
riqueza nutritiva e resgatando a cultura alimentar tradicional, sendo forte
base para a educação alimentar e nutricional (FERRARA, 2020; FERREIRA et al.
2021).
Nos aspectos sociais, as hortas
evidenciam que não produzem apenas alimentos, mas produzem cidadania e vínculos
(Santos & Machado, 2020). O cultivo em mutirões promove forte inclusão e
integração territorial. Destaca-se o protagonismo do empoderamento feminino e a
ativação de idosos, que encontram no espaço uma ressignificação do seu papel
social e terapia integrativa para a saúde mental (Santos & Machado, 2020; Schroeder,
2025).
5. Hortas comunitárias e as cinco
macrotendências da Segurança Alimentar e Nutricional
A leitura das políticas de SAN
ganhou robustez com a formulação teórica das cinco macrotendências em curso nos
territórios, desenvolvida para qualificar o monitoramento de políticas públicas
(Reis, 2025). As hortas comunitárias articulam-se organicamente com cada uma
delas da seguinte maneira:
- 5.1
SAN e meio ambiente: A primeira macrotendência aponta para a piora da
qualidade ambiental, gerada por modelos extrativistas predatórios. As
hortas comunitárias respondem a isso atuando como Soluções Baseadas na
Natureza. Através da agricultura urbana sustentável e da compostagem, elas
reciclam resíduos orgânicos, recuperam áreas degradados e abandonadas –
aquelas que frequentemente são utilizadas para abandono de lixo e entulhos
- otimizam o uso racional da água e conservam a agrobiodiversidade com o
uso de sementes crioulas e nativas. No contexto de adaptação climática, as
hortas são sumidouros de carbono, mitigam alagamentos pela permeabilização
do solo e reduzem as ilhas de calor urbanas.
- 5.2
SAN, saúde e nutrição: A segunda tendência foca na mudança para hábitos
alimentares não saudáveis (ultraprocessados) e seus impactos (como
obesidade e doenças crônicas). As hortas comunitárias são fundamentais na
promoção da alimentação adequada. Elas representam a ecologia dos saberes
e a educação informal, estimulando o consumo in natura e sem
agrotóxicos. Influenciam escolhas mais saudáveis através do vínculo
afetivo gerado pela prática do cultivo, atuando também diretamente na
promoção da saúde física e mental dos envolvidos.
- 5.3
SAN e condições socioeconômicas: Esta macrotendência retrata o
comprometimento do acesso aos alimentos devido à pobreza e desigualdade
social. Em resposta, as hortas comunitárias reduzem vulnerabilidades
econômicas potencializando a autonomia alimentar. Elas aliviam o orçamento
familiar pela via do autoconsumo, em realidades onde populações
vulneráveis despendem grande fatia da renda com comida. Em larga medida,
criam microeconomias solidárias pautadas no comércio justo e em circuitos
curtos.
- 5.4
SAN e condições político-institucionais: A quarta macrotendência denuncia
o esvaziamento da política e o fechamento de espaços de participação
democrática. As hortas resistem a isso ao se afirmarem como arenas de
cidadania e governança participativa. A ocupação e a gestão de um espaço
coletivo fomentam a criação de conselhos locais, interações com
associações de bairro e universidades, e funciona como base de pressão
popular para que o Estado implemente políticas públicas e proteja o
Direito Humano à Alimentação Adequada.
- 5.5
SAN, redes públicas de solidariedade e vulnerabilidade social: A última
tendência indica o enfraquecimento das redes de apoio governamentais.
Durante choques como a pandemia de COVID-19, as hortas comunitárias
provaram seu valor inestimável no fortalecimento de redes de
solidariedade. Aliadas a cozinhas solidárias e bancos de alimentos,
formaram arranjos locais de resiliência comunitária fundamentais para a
sobrevivência e distribuição de comida para populações marginalizadas.
6. Limitações e desafios
Apesar dos vastos benefícios, a
consolidação das hortas comunitárias na literatura esbarra em sérios limitantes
que ameaçam sua permanência. O principal fator é a insegurança fundiária;
muitos projetos localizam-se em terrenos públicos ou privados não regularizados,
tornando-os altamente vulneráveis à especulação imobiliária e a ordens de
reintegração (Schroeder, 2025).
Outro desafio premente é o acesso a
recursos básicos e a ausência de políticas públicas permanentes. A falta de
subsídios expõe os moradores a altos custos com contas de água, limitando a
viabilidade econômica. Sob a ótica social, constata-se a frequente sobrecarga
das lideranças e a dependência de voluntários. Com o tempo, a baixa
participação contínua da comunidade e os eventuais conflitos internos de
relacionamento causam descontinuidade. Desafios físicos incluem a necessidade
de revitalizar solos contaminados (antigos lixões) e enfrentar intempéries
climáticas que prejudicam as safras (Oliveira, 2022; Santos & Machado,
2020; Schroeder, 2025)
Para superar tais obstáculos, faz-se
vital a formulação de instrumentos jurídicos de concessão de uso da terra a
longo prazo, subsídios para insumos e assistência técnica governamental
sistemática. Somente com a integração dessas práticas no planejamento urbano
normativo, as hortas comunitárias poderão cumprir plenamente sua vocação na
construção de sistemas alimentares que sejam verdadeiramente sustentáveis,
justos e resilientes, materializando o Direito Humano à Alimentação Adequada
nas cidades.
7. Referências Bibliográficas
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políticas públicas. 2006. 147 p. Dissertação (Mestrado) - Engenharia
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setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e
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SCHROEDER, J. S. Horta Urbana
Comunitária: um cenário multifuncional / Jéssica Silveira Schroeder. 2025.
65 f. Orientadora: Teresinha Guerra. UFRGS, Instituto de Biociências, Porto
Alegre. 2025
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