O regime democrático garante que
diferentes projetos políticos disputem regularmente a inserção de suas agendas
no aparato do Estado. Ou seja, que suas agendas se tornem agendas
governamentais e as demandas nelas contidas sejam relativamente privilegiadas
dentro de um universo de demandas no ciclo de políticas públicas.
A realização de eleições regulares,
limpas e competitivas tem sido o principal indicador da existência e do
funcionamento de regimes democráticos. Assim, a classificação de determinado
projeto político como democrático ou não e, em casos extremos como vivenciamos
no tempo presente, de antagonismo a tal regime, teria como critério o apoio ou
ameaça ao instrumento eleitoral.
Porém, é preciso ir além. As eleições
são parte importante dos processos democráticos, mas estes não podem ser
reduzidos a tal instrumento. Nesse sentido, a participação social, não apenas
no engajamento em períodos eleitorais, mas sim de modo permanente; e o combate
das desigualdades sociais produzidas pelo capitalismo enquanto sistema
econômico hegemônico na atualidade, tornam-se componentes fundamentais a uma
definição de democracia.
Assim, uma definição que incorpore tais
componentes centraliza a soberania popular nos processos políticos em curso,
legitimando as diferenças constitutivas das complexas sociedades nacionais e garantindo
a participação e a representação de suas diversidades na deliberação
político-pública para além das eleições.
No contexto brasileiro dos últimos anos,
as disputas eleitorais excederam tal dimensão burocrática da política,
evidenciando uma disputa em torno da própria democracia. Cada vez mais
polarizadas, as eleições têm conformado dois projetos principais, que articulam
as diferentes demandas e visões de mundo existentes em duas frentes amplas: uma
pró democracia e outra antidemocrática.
Essa antítese, portanto, não se limita à
realização das eleições ou à manutenção das instituições básicas do regime
democrático. Ela envolve também os próprios fundamentos da democracia, como
igualdade, liberdade e participação.
Enquanto a primeira frente promove a
democratização da própria democracia ao reafirmar tais princípios por meio de
diferentes propostas de políticas públicas, ela também articula distintos
projetos políticos que disputam legitimamente a institucionalização de suas
agendas em torno da defesa da democracia.
A segunda, por sua vez, articula
projetos que buscam inviabilizar as dinâmicas democráticas da esfera pública, deslegitimando
seus adversários, convertendo-os em inimigos da nação, e interditando os
espaços de participação social em favor de poucos, mas poderosos, interesses
setoriais.
Na frente democrática, poderíamos
encontrar então projetos, demandas, ideais e visões de mundo compatíveis com as
definições acima delineadas, que se colocam a favor da justiça social e
econômica, paridade de gênero, valorização da participação social nos processos
consultivos e decisórios e do combate à crise climática e ao desmatamento; isto
é, que buscam promover igualdade entre os mais distintos grupos socioculturais,
liberdade pela via da geração de oportunidades a todos e participação da
sociedade civil em todo o ciclo de políticas públicas.
Já em torno da frente antidemocrática,
articulam-se projetos, demandas e representações de mundo que se orientam por
uma lógica excludente, de desmonte de políticas públicas, predatória de
recursos naturais, reacionária em torno dos direitos das mulheres e outros
grupos, como indígenas, negros, LGBTQIA+, fundamentada em preconceitos
religiosos e, assim, que desloca debates sobre questões político-públicas a uma
disputa moral.
E como isso se articula à Segurança Alimentar e Nutricional? A San, enquanto conceito e direito, tem como elemento constitutivo a democracia:
- Dos debates e da construção coletiva de sua definição, a partir de diversas ações desde a sociedade civil e de diversos fóruns e encontros territorialmente descentrados ao final do século XX;
- Na sua institucionalização no corpo do Estado, na forma da Lei Orgânica n. 11.346, e de seus mecanismos que garantem e promovem a participação da sociedade nas políticas dela engendradas, como as Conferências Nacionais, Estaduais, Municipais e Livres, Conselhos de SAN e do Sistema Único na primeira década do milênio;
- Nos princípios contidos em sua definição, como o respeito à diversidade cultural e à sustentabilidade multidimensional; e
- Na sua constante e necessária articulação com outros projetos, como as lutas dos povos e comunidades originários e tradicionais, movimentos sociais, como de mulheres e da população negra, entidades e associações religiosas, universidades e instituições de produção, com o poder público em seus diversos níveis, entre outros.
Portanto, a San é democrática em sua
origem, em sua definição e em sua prática. Inversamente, a democracia é o
terreno político e simbólico que possibilita a construção de um projeto
centrado na promoção da segurança alimentar e nutricional e na garantia do
direito à alimentação adequada a todos.
Assim, as amplas frentes que polarizam o
cenário político atual, polarização esta evidenciada e exacerbada em contextos
eleitorais, não podem ser lidas apenas como dois projetos legítimos em disputa
pelo êxito nas eleições, visto que um deles coloca em xeque a própria
democracia.
Como consequência, este projeto político
antidemocrático ameaça à efetivação do direito de todos ao acesso regular e
permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, tendo como base
práticas alimentares promotoras de saúde orientadas pela sustentabilidade e
pelo respeito à diversidade, de modo que não comprometa o acesso a outras
necessidades essenciais. Isto é, ameaça à segurança alimentar e nutricional da
população brasileira.
A configuração do Congresso Nacional das
últimas décadas e o êxito eleitoral do bolsonarismo em 2018, que resultou em
quatro anos de um governo antidemocrático e no retorno do Brasil ao mapa da
fome, evidenciam a necessidade da vitória da frente democrática nos atuais pleitos
federal e estadual.
Contudo, a crise da democracia vivenciada
nos últimos anos, marcada pelo desmonte de políticas públicas que valorizam a
soberania popular e promovem a igualdade, a liberdade e a participação e pelo
fortalecimento de discursos que minam as bases simbólicas que sustentam o
ambiente democrático, demonstra que tal disputa excede o momento eleitoral.
É preciso, portanto, disputar ativa e
permanentemente a democracia em suas múltiplas dimensões, de modo a garantir
não apenas a manutenção, mas a ampliação da segurança alimentar e nutricional
no Brasil e no mundo. Isso requer a articulação e o fortalecimento da frente
democrática em oposição a sua antítese.
A defesa da San é a defesa da
democracia. A defesa da democracia é a defesa da segurança alimentar e
nutricional.
Beatriz Franco do Vale
Doutoranda em Ciência Política – PPGCPol/UFPel
Colaboradora do Programa Diálogos de Saberes
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